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A paz mundial passa pela agricultura brasileira

Fonte: Joana Gonçalves, Super Varejo

fotos: Moacyr Neto

Mesmo com a disputada agenda, o engenheiro agrônomo Dr. Roberto Rodrigues atendeu à reportagem de SuperVarejo e nos brindou com uma verdadeira aula sobre o agronegócio brasileiro. Por uma hora e meia, falou, emocionado, a respeito das muitas conquistas e desafios do setor. Elogiou, particularmente, o esforço dos produtores que, “de costas para Brasília”, fazem de nosso país um dos mais importantes players do mundo. Em alguns momentos, o ex-ministro da pasta (no governo Lula) não escondia a emoção. “Desde que me formei, trabalho com agricultura. Está escrito ‘agricultura’ na minha testa. Estou em mais de trinta conselhos diferentes de entidades ligadas ao agronegócio. Até dois anos atrás, em qualquer lugar que eu chegasse, era possível ouvir ‘ele representa a agricultura’. Hoje, quando entro, também ouço essa mesma frase, mas o tom é outro!” A mudança de tom tem um sentido. É que o coordenador do Centro de Agronegócios da Fundação Getulio Vargas e embaixador especial da FAO para o Cooperativismo precisou rever seus conceitos e se deu conta de que tem uma urgente missão: ajudar o Brasil a atender ao apelo da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) de aumentar a produção de alimentos em 40% para equilibrar a oferta global (que precisa crescer 20% até 2020), evitando, assim, que haja fome. “Segurança alimentar é fundamental para que haja paz. Temos todas as condições para fazer do Brasil o campeão mundial da segurança alimentar; portanto, campeão mundial da paz!” Ele confessa que, de sua parte, houve uma mudança de paradigma: “Por mais de três décadas, me queixei da falta de uma estratégia para agricultura e a debitei não à ignorância, mas ao pouco-caso que o setor urbano faz do campo. E nos marginalizamos, nos separamos. Mas, urbanos ou rurais, somos todos brasileiros. Urbano e rural não são irmãos, são siameses!”. A seguir, ele explica melhor esses e outros conceitos.

O SENHOR JÁ FOI MINISTRO DA AGRICULTURA E ADMITE QUE TEM, AGORA, OUTRA VISÃO DO AGRONEGÓCIO. O QUE MUDOU?

Houve uma mudança de paradigma. Quero investir os últimos anos da minha vida em um programa que faça do Brasil o campeão mundial da paz. Segurança alimentar virou um tema recorrente, hoje, nos órgãos multilaterais, pois é precondição para que haja paz. Por que as pessoas estão fugindo de países da África, Ásia, Oriente Médio? É fome! Por trás de toda guerra há sempre miséria e fome. A ONU olha para 2050 com um cenário de 9,3/9,4 bilhões de pessoas. E avalia que, até lá, precisamos crescer 70% para que haja comida para todo mundo. Minha vocação é segurança alimentar global, é alimentar o mundo, inclusive o Brasil, e fazer dele o campeão mundial da segurança alimentar!

POR QUE O SENHOR DIZ QUE O BRASIL É O ÚNICO PAÍS QUE PODE DAR RESPOSTA RÁPIDA À DEMANDA GLOBAL DE ALIMENTOS?

Não sou eu que digo, é a OCDE, um dos órgãos econômicos mais importantes no mundo. Em 2011, ela estimou que, em dez anos, a oferta mundial de alimentos precisaria crescer 20% para que não houvesse fome. Se pensarmos que, do ano passado para cá, o Brasil aumentou a safra de grãos em 17%, crescer 2% ao ano parece moleza! Só parece. A União Europeia cresce no máximo 4%; Ca- nadá e Estados Unidos, em torno de 13%; Oceania, de 15% a 17%; China, Índia e Rússia podem crescer entre 20% e 25%. De tal modo que a OCDE pediu que o Brasil crescesse 40%. O apelo veio de fora, é inédito! “Brasil, pelo amor de Deus, aumente em 40% a produção de alimentos para que o mundo aumente 20%!”

COM BASE EM QUE A OCDE CONFIRMA O BRASIL COMO “O CELEIRO DO MUNDO”?

O Brasil tem três condições que, somadas, nenhum outro país tem: terra disponível, tecnologia tropical e gente capaz. Dos anos 1990 até hoje, a área plantada de grãos cresceu 60% e a produção de grãos, 310%, cinco vezes mais. Como? Com tecnologia. Aumentamos a produtividade por área. E mais importante: hoje cultivamos 60 milhões de hectares com grãos. Se tivéssemos a mesma produtividade dos anos 1990, seriam necessários mais 89 milhões de hectares para produzir a safra deste ano. Em outras palavras, preservamos 89 milhões de hectares de desmatamento, temos cinco vezes mais em área plantada e sem qualquer tipo de agressão ambiental, devastação etc. Todas as atividades agrícolas mostram uma “economia” de terra. O crescimento se deu mais pela produtividade agrícola do que pela expansão horizontal.

O QUE PROVOCOU ESSE AVANÇO?

A estabilização da economia impulsionou fortemente a mudança de comportamento do produtor. Sou de um tempo de inflação brutal, 60%, 70%, 80% ao mês, e aumentar a produtividade em 10% era irrelevante. Meu agrônomo era o gerente do banco, minha renda vinha do overnight. A ineficiência era coberta pela inflação. Se eu vendesse mal minha soja e aplicasse, no mês seguinte tinha feito um bom negócio. Isso desapareceu com a economia estabilizada. Nos anos 1990, a correção de índices do Plano Collor fez quebrar muito produtor. Quem sobrou se viu forçado a sair de uma ciranda financeira maluca e destrutiva para assumir um modelo de gestão e tecnologia, de forma a agregar produtividade por hectare.

MAS O SENHOR DISSE QUE O BRASIL GASTA COM CIÊNCIA E TECNOLOGIA MENOS DE 2% DO PIB…

O que investimos é insignificante vis-à-vis os países concorrentes. Ainda assim, temos a melhor tecnologia tropical do planeta. Transformamos tecnologias desenvolvidas em países temperados em tropicalismo tecnológico. Somos imbatíveis nisso! A Embrapa vem fazendo um trabalho tão expressivo que é frequentemente chamada a firmar acordo com governos da África, Ásia e América Latina. E mais: a tecnologia tropical se desenvolve com alguma rapidez em relação à temperada. Com três safras por ano, o processo de experimentação tecnológica se torna muito mais rápido. É algo dinâmico, não pode parar, mas podemos fazer muito mais em tecnologia.

O QUE O PAÍS PRECISA PARA CONSEGUIR ATENDER AO APELO DA OCDE?

Temos terra, gente e tecnologia, mas falta um plano consistente, sério. Precisamos de um novo modelo de política agrícola, que implica ação pública e ação privada, sob uma única égide: sustentabilidade ambiental, social e econômica, uma estratégia que contemple infraestrutura e logística, políticas de renda, modernização dos instrumentos legais, seguro rural. Fiz o seguro rural quando era ministro. Hoje, 14 anos depois, não temos 10% da área agrícola coberta por ele, pois o governo, responsável por subvencionar o prêmio do seguro, não faz a parte dele. No que diz respeito à logística e à infraestrutura, frequentemente recebo investidores estrangeiros e brasileiros interessados em investir em armazéns, portos… Esbarramos na insegurança jurídica. Existe o receio de que se mudem os contratos no meio do caminho. E eu fico em situação delicada. Hoje, há, no governo, gente muito boa nessa área, planos prontos com previsão de volumes de produção que podem sair por ferrovia, hidrovia, porto etc. Está tudo dimensionado, preparado. Falta previsibilidade, falta dinheiro.

POR QUE É TÃO DIFÍCIL O BRASIL SE ASSUMIR COMO PAÍS AGRÍCOLA?

Meu desafio é fazer o Brasil abraçar sua vocação, que é o agronegócio. Vários países montaram projetos de desenvolvimento com base em uma vocação natural e no comportamento histórico de seu povo. A Índia é centro mundial de TI; a China montou uma plataforma de exportação e hoje é gigante mundial de industrializados; a Coreia apostou em eletroeletrônicos; a Europa investiu em cultura, culinária, turismo, história etc. O Estado brasileiro não olha o agronegócio dez anos à frente; olha, no máximo, três, e faz política agrícola de qualquer jeito. Mas isso tem explicação. O processo de urbanização foi muito rápido aqui. Há 50 anos, 70% da população vivia no campo. Hoje, quase 90% do povo está na cidade. Se o eleitor é urbano, obviamente elege deputado, presidente, vereador, governador urbanos. Esses políticos urbanos têm quase um preconceito com o campo.

EM QUE CONSISTEM AS POLÍTICAS DE RENDA PARA O AGRICULTOR?

Primeiro, quero explicar o conceito por trás disso: na década de 1930, os Estados Unidos viviam um momento extremamente delicado na economia, e Roosevelt criou o New Deal, programa de geração de riqueza e renda com base na agricultura. Criou-se uma série de mecanismos de sustentação de renda e subsídios, de forma a permitir a sobrevivência do produtor rural e garantir abastecimento para a população crescentemente urbana. A Segunda Guerra gerou uma condição dramática na Europa. Os europeus chegaram a passar fome. Terminada a guerra, os líderes europeus disseram: “Nunca mais vamos passar fome. Custe o que custar”. E montaram a PAC (Política Agrícola Comunitária), um conceito diferente que foi a base da união europeia. Qual a importância para os políticos de qualquer nação? Garantir comida para todos. Como? Dando estabilidade ao produtor. Essa foi a essência do pensamento dos europeus e é também a minha.

POR QUE ACORDOS BILATERAIS NÃO FUNCIONAM AQUI?

Hoje, 40% do comércio mundial de alimentos acontece à margem das regras da OMC, em acordos bilaterais. O Brasil não tem nenhum acordo bilateral relevante. E o que tinha, a ALCA, de um horizonte espetacular para o país, foi cortado. Não podemos achar que somos um país de 500 metros quadrados. Temos 850 milhões de hectares, mais de 200 milhões de habitantes e a melhor e mais sustentável tecnologia tropical do planeta. Precisamos de um projeto nacional de desenvolvimento que motive a todos, algo gigantesco que promova acordos bilaterais com grandes consumidores, como União Europeia, Estados Unidos e China.

ALÉM DA FALTA DE PREVISIBILIDADE NO CUMPRIMENTO DE ACORDOS, QUE OUTRO ASPECTO LEGAL PRECISA SER REPENSADO?

Modernização dos instrumentos legais sob a ótica da especificidade do campo é outro tema urgente. Não tivemos, ainda, habilidade para montar legislações para o campo diferentes das pensadas para a cidade. A lei trabalhista é a mesma aqui e no campo. Hoje, há uma frente parlamentar no congresso que entende isso, mas é minoria. O sujeito da cidade, o comerciário, o industriário, o bancário, trabalha o ano inteiro. Na agricultura, não. Ela tem dois momentos: quando planta e quando colhe. O trabalho temporário é uma necessidade da agricultura. Temos dois meses de colheita no café, por exemplo. Porém, se ocorre uma geada, precisamos do dobro de funcionários para agilizar a colheita, mas não se permite. A legislação precisa mudar sem que isso represente perda de direitos dos trabalhadores; pelo contrário, que os garanta.

A EUROPA FAZ ISSO MUITO BEM.

Na França, nas férias, as meninas dos colégios estão colhendo cerejas, morangos, amoras, uvas etc. É natural. Estados Unidos importam trabalhadores de Porto Rico, Costa Rica, países do Caribe, pois é essencial aumentar mão de obra na colheita. Aqui, essa não distinção entre o trabalhador urbano e o rural perturba enormemente, razão pela qual o Brasil é campeão mundial de casos trabalhistas. O produtor rural quer mecanizar o máximo possível para ficar livre de questões dessa ordem. Não é o trabalhador, é o advogado que vai até lá e cria problema.

O BRASILEIRO RECONHECE A IMPORTÂNCIA DO AGRONEGÓCIO?

Reconhece. Não admira, mas reconhece, e isso já é muito bom. Sabe que o agronegócio representa um quarto do PIB, garante o saldo comercial e é um grande empregador na formalidade. Há o reconhecimento. Falta o pertencimento. No ano passado, Catherine Deneuve ganhou o prêmio europeu de cinema, o Lumière Award. E dedicou o discurso aos agricultores franceses. Disse que estava viva graças à comida que produziam. É esse o conceito. A culpa por essa falta de pertencimento do brasileiro é nossa. É minha!

MAS O SENHOR ESTAVA NUM POSTO-CHAVE DO GOVERNO PARA PROMOVER ISSO E SAIU…

Porque minha visão não era essa. Como lhe disse, é mudança de paradigma. Precisamos mudar essa visão de urbano contra rural e vice-versa. Digo aos produtores rurais: “Gente, nós não somos melhores que ninguém. Aliás, não somos nada sem os urbanos”. O urbano e o rural não são irmãos. São siameses! Um não existe sem o outro.

NÃO É UM DESCOMPASSO, URBANO DEMAIS PARA RURAL DE MENOS?

Nos Estados Unidos, só 3% da população é rural. Há subsídios e o urbano reconhece que, sem o rural, não sobrevive. Quer pagar impostos, para o rural ter seguro, garantia. Houve, em 2012, uma seca brutal. A quebra da safra estadunidense foi gigantesca, os preços das commodities subiram muito. O produtor vendeu por 50% do preço e recebeu pelo correio o cheque do governo de 50% do seguro. Todos os grandes países subsidiam enormemente a agricultura. Uma vaca, na Suíça, ganha subsídio, por ano, maior do que ganha de salário um terço da população do mundo. O produtor europeu não é um agricultor, é um tomador de subsídio. A filosofia que está por trás é garantir que ele permaneça na atividade, suprindo o consumidor e não tomando o lugar dele na cidade.

AQUI, O PEQUENO PRODUTOR SE QUEIXA DE SER DEIXADO À DERIVA, FALTA CRÉDITO, FALTA TUDO…

Essa é uma verdade relativa, uma meia verdade. Existe crédito para o peque- no produtor, o PRONAF. Mas temos de admitir, o Brasil é o segundo país do mundo, de trás para frente, em subsídios para a agricultura. O país que menos subsidia a agricultura é a Nova Zelândia – 2% do PIB agrícola. No Brasil, esse índice é de 3%. Nos Estados Unidos, é 19%; na China, 20%. Todo mundo subsidia fortemente o pequeno produtor. Também a estabilidade social é importante. Aqui não temos essa visão de políticas públicas de crédito ao pequeno. Por definição, ele não tem escala. Sua saída é fazer escala com seus iguais, em cooperativas modernas, de boa gestão. Unidos, produzirão a escala que o grande tem sozinho, agregarão valor e irão ao mercado de forma muito mais consistente. Temos grandes exemplos de pequenos ganhando dinheiro em cooperativas, como Cooxupé, em Guaxupé; Coamo, em Campo Mourão; Cocamar, em Maringá; e Aurora, em Santa Catarina.

O BRASIL FAZ USO DE AGROTÓXICOS PROIBIDOS EM OUTROS PAÍSES?

Essa é outra meia verdade dentro do cenário que temos. Enfrentamos dois fenômenos perturbadores: primeiro, a burocracia. As empresas de insumos agrícolas, de defensivos, particularmente, investem bilhões de dólares numa molécula nova, mais sustentável, que agride menos o ambiente e que precisa ser aprovada rapidamente. Nos Estados Unidos, a aprovação se dá em um ano. Aqui, leva oito, em média. Quando chega a ser aprovada, já está ultrapassada ou até já foi abolida no país de origem. Segundo: os países temperados fazem uma safra por ano. O Brasil tem sol o ano inteiro e consegue até três safras por ano. E ainda, como país tropical, sua plantação sofre muito mais agressão, muito mais pragas, doenças, invasores etc. Então, nada mais natural que empregue o dobro de defensivos dos temperados. Se conseguíssemos desburocratizar o processo de liberação de novas moléculas, diminuiríamos enormemente esse problema.

AVANÇAMOS EM TRANSGÊNICOS, MAS EM MUITOS PAÍSES ELES SÃO PROIBIDOS.

A transgenia é um tema polêmico e mal compreendido. Mas é uma página de ciência. Sou a favor que se produza sob as regras da Lei de Biossegurança, da qual fui um dos artífices. Ela é rigorosa, severa. E o mercado tem de diferenciar o produto transgênico do não transgênico. O consumidor tem o direito de saber. Por que se planta soja transgênica? Porque é mais barata. Não quer a transgênica? Então, pague mais pelo não transgênico. Quem decide é o mercado. Se ninguém comprar, ninguém produz.

POR QUE O ORGÂNICO NÃO DESLANCHA E OS PREÇOS CONTINUAM PROIBITIVOS?

É outro setor importante, mas com- plexo e desorganizado, que cresce menos do que gostaríamos. Hoje, na Dinamarca, 10% do mercado é de orgânicos. Aqui, os produtores não se entendem e temos problemas técnicos de caráter regulador. A certificação, por exemplo, é a mesma para todas as regiões, com sistemas de produção diferentes. Defendo a cultura orgânica, que é uma solução importante para a classe de maior poder aquisitivo. Em alguns produtos, o preço já está equiparado com os não orgânicos. Orgânico é tecnologia, mas também persistência, determinação, competência, seriedade.

O SENHOR CITOU TANTOS DESAFIOS DO SETOR E, AINDA ASSIM, SE MOSTRA TÃO CONFIANTE. POR QUÊ?

Estou andando pelo Brasil inteiro revisitando o campo. Sempre me emociono ao ver o pequeno, o médio, o grande produtor. Em agosto/setembro, já tinham comprado sementes, adubos etc. “Vamos plantar, Dr. Roberto.” “Mas o preço está baixo, não há crédito!” “Nóis dá um jeito.” É destino. Agricultura é como uma bicicleta, se parar de pedalar, cai. Tem de pedalar. Está no DNA do agricultor brasileiro empreender. Ele chora, reclama, mas planta de qualquer jeito. Está de costas para Brasília. Isso nos enche de orgulho e confiança, e eu estimulo essa atitude. Por que todo ano a safra brasileira bate recorde? São Pedro é bonzinho? Não. Alguém plantou. Só colhe quem planta!

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